A vitória do "Não", tão comemorada por um pequeno grupo de "ambientalistas", na consulta pública realizada no último domingo, trará reflexos ao futuro de Porto Alegre. Reflexos negativos. Uma minoria, em torno de 1,8% do universo dos eleitores porto-alegrenses, votou contra a proposta da construção de prédios residenciais na Ponta do Melo (antigo Estaleiro Só). Muitos desavisados (ou melhor: desinformados - não no sentido de falta de informação, mas de informação incorreta). A verdade é que não sabiam o que estava sendo votado, embora a pergunta fosse muito clara. Para o gaúcho e o porto-alegrense, está enraizado em nossa história política e cultural ser contra. Ganhou o "Não".
Ganhou a perda de uma bela oportunidade da cidade voltar a ser pujante como outrora foi. Ganhou a perda de um espaço qualificado na orla para admirarmos nosso belo pôr-do-sol tomando chimarrão, com toda a segurança necessária. Isso sem falar dos empregos que seriam gerados (e essa frase, deixo bem claro, não está dizendo que concordo com qualquer projeto com justificativa de geração de emprego, renda, etc. Cada caso é um caso).
O que foi dito por alguns e que não representa a verdade? Veja!
- O pontal vai privatizar a orla.
A área é privada, o proprietário pagou por ela e nada muda isso. O acesso a orla deve ser de acesso público por lei, e isso seria cumprido. Nada impede construir um empreendimento e manter uma harmonia com esse conceito. Em torno de 54% dessa área particular voltaria a ser pública, com espaços qualificados!
- O pontal vai abrir precedente para outras edificações em nossa orla.
A pergunta formulada é muito clara. Trata-se exclusivamente daquela área, e não da orla como um todo: "Além da atividade comercial já autorizada pela Lei Complementar nº 470, de 02/01/2002, devem também ser permitidas edificações destinadas à atividade residencial na área da Orla do Guaíba onde se localiza o antigo Estaleiro Só?"
- Haverá mais poluição no Guaíba se construirem prédios ali.
Não. Haveria um sistema de tratamento de esgotos nos prédios do Pontal. A custo do empreendedor, e não do Dmae (a quem caberia a responsabilidade).
- O pontal vai desmatar vegetação nativa.
A única coisa nativa que existe é a cultura de ser contra aqui em Porto Alegre. A área é um aterro, como poderia haver algo nativo? Foi o mesmo argumento utilizado na época da construção da Avenida Beira Rio. Felizmente o ex-prefeito Collares enfrentou a briga. Fogaça preferiu "fugir" ao propor essa caríssima consulta. Escutar o povo é importante, mas pense bem... 1,8% das pessoas não pode decidir o futuro de todas as outras, não há representatividade.
- O pontal vai atrapalhar a circulação dos ventos e a luminosidade solar.
A maioria das cidades desenvolvidas têm vários prédios em sua orla. Se isso fosse verdade, seria um milagre as pessoas ainda conseguirem respirar lá. Como que meia dúzia de prédios iria promover tamanha reviravolta no clima de uma cidade?
- O pontal é um conjunto de espigões.Prédios de 12 andares são espigões? Em nenhum lugar do mundo. Talvez na praia do Magistério, ou Quintão...
A Prefeitura, ao fugir da responsabilidade de se posicionar sobre assuntos polêmicos, descreditou a Câmara de Vereadores - eleita pelo povo justamente para decidir os assuntos pertinentes a Porto Alegre. Para completar, gastou R$ 300 mil para organizar a consulta popular. Isso dá R$ 13,29 por voto. Isso que ela não custou mais, já que os números não estão bem fechados. Outra curiosidade é a comemoração do Prefeito e Vice-Prefeito com o "sucesso" da consulta. Com 22 mil foi considerado um sucesso? Antes de começarem as votações, qual teria sido a previsão de participação? Aposto que muito mais, no mínimo dos mínimos 100 mil pessoas. Se o empreendedor quiser, pode entrar com uma ação para anular os efeitos da consulta (não sou eu que digo isso, é uma possibilidade que existe).
O pessoal da vila Dique, que logo será removida para outro local, reclama do tamanho das casas que receberão. Os R$ 300 mil não ajudariam essa gente? A mãe que padece em filas de hospitais para que o filho receba uma consulta também não mereceria? E nossas ruas esburacadas, de asfalto remendado? E as paradas de ônibus, em especial as da Terceira Perimetral, que mais parecem um semi-galpão de tão sujas e encardidas?
Ganhou o atraso. Mais uma vez. O que podemos esperar do futuro de Porto Alegre, quando parte da população não permite que o desenvolvimento sustentável proponha algo positivo? Perderemos muitos outros projetos, isso sim.